Zélia Gattai, brasileira, neta de emigrantes italianos,
memorialista e contadora de histórias, como mesmo ela se
define, está hoje com 88 anos. Viveu 56 anos da sua vida
com o grande escritor Jorge Amado, compartilhando tudo: amor, amizade,
trabalho, politica e aquele amargo exílio que fez com que
eles fossem obrigados a viver na Europa desde 1948 até 1952.
Compartilhou também com ele a adesão ao candomblé
e a amizade com grandes personagens como Pablo Neruda, Nicolas Guillén,
Pablo Picasso, Jean Paul Sartre, Simone de Beauvoir e Pierre Verger.
Verger para eles era um grande amigo e Zélia se lembra dele
com carinho: “Era uma pessoa extraordinária e eu o
admirava muito” me revela no telefone em um dialogo que quase
se transformou numa entrevista “podemos dizer que veio ao
Barsil graças a Jorge. Pierre leu “Jubiabá”
de Jorge Amado e ficou extasiado com a descrição da
Bahia e da natureza. Teve tanta curiosidade que quis ver ao vivo
aquela natureza tão exuberante. Foi assim que ele chegou
ao Brasil, conheceu Jorge, apaixonou-se pela natureza e a cultura
brasileira e nunca mais foi embora. Ficamos tão amigos que
ele traduziu em francês meu romance “Crônica de
uma namorada”.
Zélia lembra duas histórias misteriosas qu teêm
a ver com Pierre Verger. A primeira aconteceu quando ela, fotografa
por paixão, estava preparando um livro de fotografias e pediu
ao Pierre Verger se poderia tirar-lhe uma foto. Ele respondeu que
não queria de modo algum, e pior ainda de perfil, por causa
do seu nariz um pouco aquilino. Apesar disso, Zélia tirou
varias fotos dele. Quando foi revelar as fotos ficou maravilhada
porqué as fotografias estavam completamente ofuscadas.
Ficou tão impresionada que contou o que tinha acontecido
à Mãe Senhora do Axé Opó Afonjá
que assim respondeu: “Não se ponha contra o que Verger
quer porqué ele è bruxo!”.
Passados alguns dias, Zélia contou ao proprio Verger o
que tinha acontecido com as fotos. Com grande surpresa de Zélia,
Verger começou a rir e disse:” Querida, as fotografias
podem ser tiradas somente com uma autorização”.
Algum tempo depois, Pierre Verger anunciou a Zélia que
podia fotografá-lo, mas so de frente: nasceu assim a única
fotografia que reune ele com Jorge Amado e Carybé. Esta
vez a foto saiu bem nítida.
Outra história que Zélia lembra tem a ver com o
dia do aniversario de Mãe Menininha do Gantois quando ela
completava 50 anos: junto a ela tinham-se reunidos os seus mais
queridos amigos decidindo que durante a festa cada um faria não
somente um breve discurso oficial dirigido a ela, mas gravariam
todas as testemunhos. Por isso Zélia se apresentou com
un pequeno gravador e sentou perto de Thomas Farkas, fotografo
profissional de uma TV de São Paulo.
Farkas possuia um sofisticato modelo de gravador, de alta tecnologia.
Cada um dos convidadors fez o seu discurso até que chegou
a vez de Pierre Verger. Ele começou a falar e, de repente,
parou dizendo a todos de bloquear os gravadores porqué
tinha que começar tudo de novo. Zélia e Thomas,
não sendo os responsaveis pela gravação oficial,
não apagaram o gravador e gravaram tudo. Por tres vezes
Pierre Verger começou a falar, depois interompeu e recomeçou.
No final decidiu que não era o momento ideal para ele falar
e disse à plateia que ele seria o último a fazer
o discurso. Quando acabou a festa, Zélia, ansiosa para
escutar todas as gravações, voltou para casa e foi
para seu escritorio. Sentou-se, ligou o gravador e escutou os
discursos dos amigos de Mãe Menininha do Gantois. Chegando
ao ponto em que Verger tinha começado seu discurso por
tres vezes, com grande surpresa, Zélia notou que o gravador
permanecia muto. Para os outros discursos o audio estava perfeito
enquanto que nas tentativas dos discursos de Pierre Verger se
escutava somente um som alterado e muito lento.
“Nao saía nada!” lembra Zélia.
A surpresa foi maior quando o dia seguinte recebeu um telefonema
de Thomas Farkas. O fotografo lhe pediu que emprestasse a ele
a sua gravação porqué das varias tentativas
dos discursos de Pierre Verger no seu sofisticado gravador não
havia nada. O seu gravador estava completamente muto.
“Este era Pierre Verger, ele era assim” conclui Zélia
Gattai.
Enquanto Zélia me contava este último episodio no
telefone, voltaram à minha mente as palavras de Mãe
Senhora do Axé Opó Afonjá: “Não
se ponha contra o que Pierre Verger quer porqué ele è
bruxo!”.
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