| Claudio: Nós não temos um tema em especial, mas
talvez possamos iniciar com minhas idéias, as idéias
que me ocorreram quando eu te encontrei pela última vez.
Me ocorreram duas idéias: a primeira foi a de que eu estava
me encontrando com um colega, com uma abordagem diferente, mas que
ainda assim tínhamos algo em comum. Como sou um psicoterapeuta,
penso que tive a impressão de que isso era parte da sua abordagem
comigo, pelo fato de que eu estava lhe consultando quanto aos meus
problemas pessoais. Mas não toda a sua abordagem [é
diferente da minha], talvez apenas uma parte dela. E é claro
que fiquei pessoalmente impressionado com você, ..., de que
eu poderia desenvolver um relacionamento. Mas, digamos, em termos
gerais... Então chegamos ao primeiro ponto, que pode ser
mais interessante... Eu estava muito interessado na idéia
dos orixás e , é claro, tive que traduzi-la para minha
própria visão.
Balbino: É porque cada pessoa tem uma visão diferente.
C: Eu acho que é importante que eu entenda melhor. Essa
é a razão pessoal que me traz aqui. Tenho a idéia
de que aos orixás é possível se distinguirem
três aspectos diferentes, ou formas, ou níveis, não
sei qual é o termo correto, mas algum desses. O primeiro,
claro, é que o orixá é um deus, algo em que
se acredita e que se cultua. O segundo é de que é
uma expressão de uma força da natureza, talvez uma
força dentro de você mesmo, não apenas fora
de você.
B.: Mas o orixá não é Deus. O orixá
não é Deus. Deus é Olorum, que representa
Oxalá, pra gente dentro do Candomblé. O orixá
é a natureza. O orixá tem o contato dele, tem as
coisas dele com as folhas, com o ar, com a terra, com o mar, com
o vento. Deus é o pai. Os orixás são filhos
de Deus. Porque eles são filhos de Oxalá. E Oxalá
representa todo o ar, que é Deus pra a gente no Candomblé.
C.: Isso é muito importante. Isso é uma distinção
muito importante. Então... Eu penso que você pode
estabelecer uma relação diferente com Oxalá
ou com o orixá.
B.: Não, Oxalá é o pai. Por exemplo, no
dia de hoje, a gente só veste todo mundo de branco pra
respeitar, e em homenagem a Oxalá, que Oxalá é
o pai dos Orixás. É criador dos orixás.
C.: Como um ordenador.
B.: Então, cada orixá tem um caminho, diferente
um dos outros. Por exemplo, Iansã é a deusa do vento,
da tempestade, Ogum é deus dos caminhos, Oxossi é
deus da floresta, da fartura, Xangô é da justiça
e dos raios, dos coriscos. Cada orixá tem a sua formação,
que foi dada por Deus.
C.: Isso é muito importante. Eu tenho duas questões
aí, ou muitas! Então, vejamos: a primeira questão
é que quando nos encontramos pela última vez você
me disse que o meu primeiro orixá era Oxossi. Isso foi
muito importante para mim, porque eu sempre me senti um pouco
culpado com o fato de que eu gosto de iniciar coisas e quando
tudo está arranjado eu não desenvolvo, ou me beneficio
do que está posto. Eu simplesmente me dirijo a outra coisa,
a algo diferente. Eu senti que eu estava autorizado a fazer isso.
B.: Oxossi é inquieto. Ele é um dos maiores santos.
Foi rei. Oxossi foi rei. Ele gostava muito de caçar, então
ele reunia aqueles amigos dele, aqueles príncipes e tudo
e ia caçar no mato. Ele agia por ele mesmo próprio.
Ele tinha o impulso dele de fazer as coisas.
C.: Eu penso que o orixá é personalizado, isso
é uma coisa boa do orixá. De alguma maneira, como
você disse, não há apenas uma maneira de alguém
se desenvolver. Há maneiras diferentes, tantas quanto orixás,
ou quantas combinações de orixás. Mas a segunda
questão foi o que você estava comentando há
pouco, o fato de que o orixá também é uma
força da natureza. E eu suponho que se alguém pode
estabelecer uma relação com a força da natureza
que pertence ao seu orixá isso é importante como
uma fonte de vitalidade e vida espiritual...
B.: É. Quando a pessoa é iniciada, essa menina
aí foi iniciada agora, tem um mês e pouco que ela
foi iniciada. Ela, Ogum. E mais duas pessoas que foram iniciadas.
Beatriz: Então o que acontece quando elas são iniciadas?
B.: Elas passam a ser Iaô. Aí se torna filhas de
santo. E ela tem sempre contato com o orixá. Assim, qualquer
coisa o orixá pega elas, pode dar proteção,
se ficar um pouco triste o orixá vem e dá força.
C.: Vejamos, vamos entender melhor. Alguém pode estabelecer
um contato com a força da natureza através do orixá?
... Por exemplo: com o vento, o mar, ou com o que quer que seu
orixá se relacione. Então, através do orixá
você também se conecta com a força da natureza
em si?
B.: Sim.
C.: Então, penso que, se podemos entrar em contato com
isso, podemos também entrar em contato com algo que é
mais,..., que podemos nos conectar melhor com os nossos sentidos.
Eu penso, por exemplo, que uma das coisas importantes sobre o
orixá é que existe uma experiência sensorial
através da música; não apenas de maneira
intelectual ou racional. Portanto, penso que se se pode entrar
em contato com ventos, sua pele... Por exemplo, de forma abrangente,
digamos, na Igreja Católica, o caminho espiritual é
um caminho que só se encontra através da racionalização,
ou por teses, não há nada sensorial, como algo que
se possa tocar ou sentir, de uma certa maneira não tem
nada a ver com o seu corpo. Penso que quando você falava
das forças da natureza, a pessoa se relaciona com elas
de maneira bastante clara, com seu corpo, não apenas com
a sua mente.
B.: (Venta.) Aí, orixá, natureza. Sim. O orixá
toma o corpo da gente.
Mercedez: Qual a contribuição que o Candomblé
pode oferecer num momento histórico como este? Qual é
a riqueza do Candomblé?
B.: É uma riqueza muito grande, uma riqueza espiritual
que a gente tem. É paz que a gente tem, saúde que
a gente tem, força que a gente tem. Isso são as
coisas mais importantes que nós do Candomblé sentimos.
Fazer caridade para as pessoas, viver consigo mesmo em paz, em
paz com você mesmo próprio. Ter a sua consciência,
ter sua cabeça tranqüila. Nesse momento a gente só
pede aos orixás que dêem paz no mundo. Como agora
no Iraque, teve essa guerra toda, a gente rezava pra Oxalá
que dê paz, pra cobrir todo mundo com o alá da paz,
pra não matar tanta gente inocente sem ter problema nenhum.
A gente tudo do Candomblé pedia aos deuses, aos orixás,
que metesse na cabeça das pessoas que não se tem
que ficar matando assim a torto e a direito, sem motivo nenhum.
E o orixá ajuda a gente, o orixá dá força
pra gente, entendeu? É um poder que a gente tem, por intermédio
do nosso orixá.
Mercedez: O orixá é um intermediário.
B.: Sim. O orixá é o santo da gente. Chama-se orixá.
M.: E o que significa orixá?
B.: O orixá é o santo.
B.: Ori, cabeça. Orixá, toma. Orixá toma
a gente, toma a cabeça da gente.
M.: É um intermediário, o orixá.
B.: Intermediário é Exu. Exu é um intermediário.
C.: Acho que você está dizendo que a relação
é diferente. Talvez se esteja buscando o orixá,
mas é o orixá quem encontra.
B.: Claro. Por exemplo, não é só preto que
tem orixá. Não é só preto. Pessoas
brancas, que não têm nada a ver, e o orixá
toma, o orixá pega. Eu tenho amigos italianos que é
feito de santo; eu tenho filha de santo francesa; eu tenho filha
de santo alemã, que é feita de santo, de Oxossi;
tenho uma filha de santo japonesa. Todo mundo. Se o orixá
gosta de você e o orixá tem uma missão pra
cumprir na Terra, o orixá lhe pega. O orixá lhe
pega. Tem pessoas que têm muitos problemas, aí diz,
“tá maluco, tá no hospital internado”,
e muitos médicos não sabem o que é que a
pessoa tem. Às vezes a pessoa tem um lado espiritual que
tem que ser cuidado. Como nem todos os médicos entendem
esse lado espiritual da pessoa, aí bota lá, dá
remédio, remédio, remédio, e muitas pessoas
morrem, porque não cuida do lado espiritual. Há
uns quatro anos atrás eu fiz uma palestra para quarenta
e poucos médicos, todos italianos, para falar sobre cura.
Doenças de pele que eles tratam muito com o ibi, escargot.
Nós fizemos uma cooperação muito grande,
eu tava curando um rapaz que tava com o corpo todo arrebentado,
e tava curando ele com azeite de dendê.
M.: Estava curando com azeite de dendê?
B.: Sim. As feridas, as chagas do corpo dele. Então eles
me perguntaram como é que eu podia curar aquilo. Eu disse,
primeiro se faz um trabalho pra pessoa, um trabalho de limpeza
com ervas, e depois seca e coloca azeite de dendê. E a pessoa
ficou boa.
Beatriz: É uma cura espiritual?
B.: É uma coisa espiritual. Quantas pessoas você
vê falar assim. A Sissi, mesmo. Sissi tomava remédios
caríssimos de louca e não conseguia dormir. Ela
veio, fez o santo e ficou completamente curada: tá boa.
Às vezes você sente uma dor de cabeça que
nunca passa, não tem remédio que passe aquela dor
de cabeça sua, você vai numa casa de Candomblé,
faz uma consulta e o orixá manda fazer um trabalho pra
você e depois você faz uma oferenda a sua cabeça,
você fica boa. Eu faço muito trabalho pro pessoal
italiano. Vem aqui minha secretária...
Chega uma mulher (Eliana Miranda – Filha de santo de Balbino
e “AYABA LESSEN OYA” e IYA AGAN no Aganju e ex-secretaria
geral da Fundação P.Verger, até a morte de
P. Verger em 1996.).
Eliana: Agô
B.: Agô Ia. ...minha secretária, uma branca, casada
com um italiano.
E.: Ele tá elogiando ou xingando?
B.: Não, eu tô elogiando!
E.: (risos!) Aqui quando chama de branca é xingamento!
B.: Tô aqui conversando sobre orixá com eles aqui.
Os italianos têm uma história muito bonita. Eles
me conheceram e depois resolveram fazer um trabalho... Quem decidiu
o destino dela foi a santa dela, Iansã. [Sobre Eliana]
Conte pra eles essa história...
B.: O orixá dá um destino de caminho para as pessoas...
Quantas pessoas, né, que não é só
negro, que tem santo. Alemã faz santo. Criancinha, adulto.
M.: Em que sentido, um problema sério?
C.: Agora eu gostaria de te perguntar duas coisas em especial.
Eu entendi que os dois pontos principais são: O orixá
faz uma espécie de escolha e te “toma”, então
você tem que passar por um processo de iniciação.
Mas o que eu gostaria de saber é: se há uma ligação
entre a pessoa e o orixá, como se desenvolve a parte da
pessoa que é ligada ao orixá? E se há características
especiais para algum orixá. Por exemplo, alguém
que tenha uma conexão com Xangô e deveria desenvolvê-la.
Ou que deveria desenvolver alguma característica que é
de Xangô ou Iemanjá. E é um processo que está
mais conectado com o seu próprio desenvolvimento?
B.: ... Cada vez mais as qualidades do orixá é da
pessoa também.
Beatriz: Mas como se desenvolve essa relação entre
a pessoa e o seu orixá?
C.: Parte dele mesmo que também deve ser desenvolvido?
Beatriz: Por exemplo, se eu sou de Iemanjá e eu quero
desenvolver uma relação maior com Iemanjá,
como é que isso funciona?
B.: Você tem que cuidar de Iemanjá, você tem
que tratar de Iemanjá. Você tem que procurar Iemanjá,
conhecer Iemanjá. Então, se você cuida dela,
se você dá oferenda a ela, você zela ela, pronto,
você vai ter ela. Se identifica com ela.
C.: Então, é um processo de identificação.
B.: Sim.
C.: Por exemplo, quando eu o encontrei você foi capaz de
reconhecer que eu tinha uma relação especial com
Oxossi.
B.: Porque o orixá me mostra o que a pessoa tem. Por intermédio
dos búzios e a intuição o orixá mostra.
Chega um homem.
B.: Xangô que já chegou. Esse aí é
de Xangô...
C.: Eu gostaria de te dizer que eu estava fazendo perguntas,
mas nós podemos apenas conversar. E eu gostaria de saber
se você tem alguma pergunta a me fazer.
B.: Não. Ele próprio, o que é que ele pensa
o que é um orixá?
C.: Eu não posso te dizer o que penso sobre o orixá,
mas posso te dizer o que me fascinou no orixá; o que é
bastante diferente. A primeira coisa... Eu fiquei muito interessado
no fato de que os orixás são muitos, o que, portanto,
mostra uma possibilidade de um grade desenvolvimento cultural.
B.: É, o orixá que mais tem é Iemanjá,
é a santa que mais tem é Iemanjá.
E.: Desenvolvimento de quê?
C.: Penso que a possibilidade de se ter orixás diferentes
oferece a possibilidade de se estar em contato de maneiras diversas
com o mundo...
B.: É. Sobretudo, cabeça.
E.: Quando se conhece bem o próprio orixá, os problemas
nossos, pessoais, se resolvem através da qualidade do orixá,
da característica. Por exemplo, ...
B.: Dois orixás de fogo!
C.: É exatamente o que eu estava dizendo.
B.: Têm pessoas que é de Xangô e é,
..., tem pessoas que é de Ogum e é muito valente,
muito brigão. Tem pessoas que é filho de Exu e é
bem calmo.
M.: Porque cada orixá tem vários aspectos...?
B.: Sim. Vários. Qualidades.
M.: Então, o que para mim não está claro
é isso: Essa é uma religião politeísta...
Não, porque há um deus. Um só pai.
B.: Só há um Deus. Olorum.
M.: Tampouco é um intermediário.
B.: Intermediário é Exu.
M.: Então há um intermediário.
Beatriz: E não é um orixá?
B.: Exu é um orixá.
B.: Cada um tem o seu caminho, seu destino, os orixás.
Cada orixá tem o seu trabalho, tem o seu papel. Oxossi,
o deus da caça da fartura, Xangô, o deus da justiça,
do dinheiro, Oxum, deusa da vaidade, da traição.
“Oh, cheguei!” Toda perfumosa, cheia de jóias.
Iemanjá é mãe, dá alegria aos filhos.
Iemanjá é quem dá alegria para todos nós.
Cada orixá tem um... E tem pessoas que tem a mesma coisa,
como se fosse um orixá. Tem pessoas que são muito
falsas, têm outras que não são; outras que
mentem muito, outras que não mentem. Porque fica com má
influência, com o lado negativo do orixá.
E.: O orixá é muito humano...
B.: Existem muitos orixás.
C.: Sim, mas antes você falava sobre dois níveis
distintos, por exemplo, que dois orixás podem brigar, não
as pessoas. Ou... Eu penso que há dois níveis, como
existem, por exemplo, nos deuses gregos.
B.: Budista. O budista também é quase idêntico
ao Candomblé. Eu fui uma vez pra um congresso lá
em São Paulo, tinha todas as religiões, ... , então
eles tinham os livros dele que usava Iemanjá, não
sei o que tinha lá, ... , cheio de cabeças, representava
Iemanjá. O budista.
C.: Eu não sei se você tem tempo para falar mais,
mas caso tenha eu gostaria de colocar mais algumas perguntas em
um assunto diferente.
B.: Sim.
C.: O ponto que eu gostaria de propor é sobre o que eu
chamo de múltiplas realidades, ou níveis diferentes
de realidade. Minha idéia é a de que, geralmente,
nós estamos restritos a um ou poucos níveis de realidade.
B.: Cada pessoa tem uma realidade na vida, por exemplo, eu sou
um tipo de pessoa que nasci, minha família toda era de
candomblé, e tem pessoas que são da família
também, mas que não freqüentam candomblé.
É uma realidade da vida de cada pessoa, meus filhos, nenhum
deles entrou dentro do candomblé. Eles têm direito
de escolher aquilo que eles querem. Se um dia o orixá escolher
um, eles tão pronto pra servir o orixá.
C.: Então, este é um ponto, digamos que seja num
nível horizontal. Mas farei melhor a minha pergunta. Eu
penso que há níveis diferentes de consciência.
M.: O transe.
C.: Sim, mas eu não penso que seja apenas o transe. Porque
o transe é um trânsito. Então eu gostaria
de me fazer entender antes. Por exemplo: um nível de realidade
pode ser quando sonhamos, ou outro nível de consciência
pode ser quando dormimos sem sonhar e outro pode ser quando estamos
extremamente excitados... Eu gostaria de fazer uma afirmação
e então, se for possível, que você faça
um comentário a partir do seu ponto de vista... Porque
como psicoterapeuta este é um ponto importante para mim.
B.: O seguinte é esse: quando a gente nasce a gente tem
um destino, um caminho. O destino leva as pessoas aonde a pessoa
tem que ir e tem que tá. Às vezes são cinco
irmãos de uma mesma família, cada um é diferente
do outro, uns aos outros. A gente quando tá em transe,
a gente não sabe nada, não vê nada. E tem
pessoas que entram em transe e vê, sabe. Não podem
se dominar, mas... E quando sai do transe não se lembra
de nada.
M.: O estado de transe não é igual para todos,
ou seja, cada um o vive de uma maneira distinta, diferente. Há
quem perca o controle, porém está lúcido,
sabe, e quem não se lembra de nada.
B.: Sim.
Entra um homem.
M.: O que quer dizer “que vai ser iniciado”? O que
faz ele?
B.: É como se fosse um padre entrando num convento. Como
um noviço...
M.: Ele entra no terreiro...
B.: ...para descansar, para fazer o santo.
M.: E vem viver aqui?
B.: Não, só por um tempo. Até ele ser iniciado.
A mãe dele é psicóloga, a mãe do garoto,
e o pai, jornalista.
C.: Vejamos, há então dois pontos, não sei
se posso abordá-los. O primeiro é sobre os sonhos.
Percebo que há uma intuição, uma relação
entre a pessoa mesma e um determinado orixá, mas eu gostaria
de saber se também existem sonhos que mostram que há
uma ligação (conexão).
B.: Não. Sonho, não. Quando a gente sonha uma coisa
é porque o nosso orixá sai da gente, e aí
a gente vai dormir. E aí eles mostram as coisas que se
passam na cabeça da pessoa. Por exemplo, você vai
dormir, você apaga completamente, então nessa hora
seu orixá não tá de junto de você.
Então ali você sonha coisas, você vê
coisas que se passam porque você tem uma visão por
intermédio dos seus orixás.
Beatriz: O orixá está em outro lugar e você
pode ver, é isso?
B.: Pode ver.
M.: Que interessante...
Beatriz: Mesmo que ele não esteja com você?
B.: Mesmo que não esteja.
C.: Esses são os sonhos. Mas, existem diferentes tipos
de sonhos, ou existem alguns sonhos que são mais importantes?
B.: Tem. Tem sonhos de aviso. Eu tava dormindo e tava sonhando
com Iansã e um egum carregando minha mãe, eu perguntava
pra onde é que tava levando ela, aí a Iansã
falava assim: “Eu estou levando ela para ela descansar.
Ela tá muito cansada, então eu tô levando
ela.” Aí eu via a santa carregando ela assim. Quando
eu despertei, aí eu disse: “Ai, minha mãe
vai morrer!” Aí, me levantei, tomei um comprimido
e fiquei sentado aqui e via muita gente por aqui andando, e eu
não queria abrir a porta para não tomar o choque,
mas eu sabia que minha mãe tava morta. Aí Alda,
Alda de Iansã, bateu na porta e disse: “Deixa eu
tirar sua pressão.” Aí eu perguntei: “Pra
quê?” “Ah, porque minha avó teve um problema
e foi pra o hospital.” Eu disse: “Mentira, minha mãe
está morta.”
M.: Ele disse que há sonhos premonitórios, ou seja,
te avisam.
B.: Outra vez nós estávamos em uma roça
de candomblé fazendo um bafo de Iaô e eu sonhei que
tinha uma falsidade com meu sobrinho, que ia matar ele. Aí
eu via no sonho o que eu tinha pra fazer pra defender, pra não
matarem ele.
Beatriz: Uma pessoa ia matar ele?
B.: Sim, ia matar ele. E eu tinha que acender uma vela na casa
de Exu, no horário certo, pra não matar ele. Mas
foi assim tudo certo, sonhava aonde eu estava, sonhava o que ia
se passar comigo, sonhava as pessoas que chegavam aqui e a pessoa
que vinha me avisar que ele tinha morrido e como ele caía
morto no chão. Ele caía assim, morto no chão,
com os pés em cima de um carro de mão, assim,...
um carro de mão e todo de chumbo por aqui assim. Aí,
eu me levantei e contei pro pessoal lá, eu disse: “Olha
eu tive esse sonho assim, assim, assim, assim...” Vimos
simbora pra casa. Chegou aqui em casa, eu me deitei, era 11:30
a hora que ele ia ser morto. Cheguei em casa, eu me deitei, aí
chegou a primeira pessoa, eu me lembrei do sonho, contei pra pessoa
o sonho. Depois chegou a outra pessoa, eu contei o sonho, quando
eu despertei assim eu disse: “Valei-me Deus do céu!”
Quando eu peguei a vela, saí correndo, o menino entrou
por aqui gritando: “Meu avô, meu avô, meu avô,
corre que mataram Cabeça.” Ele tinha que morrer.
Era o destino... Eu não gosto nem de me lembrar disso,
foi muito triste... Em menos de um minuto eu fiquei com uma febre
de 45º.
M.: O destino se cumpre sempre? O destino de uma pessoa. Ou são
necessárias determinadas circunstâncias da vida para
que se cumpra o destino? E às vezes se pode morrer sem
que se cumpra o próprio destino?
B.: Não. Destino é um só. Se você
tem um destino de você progredir, prosperar, você
vai fazer aquilo tudo que no seu destino foi determinado. Se você
não tiver, você pode ficar rica e depois ficar pobre.
Você pode ser pobre e ficar rica: tudo é o destino.
Você pode ser muito bem casada, muito bem amada, e depois
existir uma perturbação na sua vida e atrapalhar
tudo. O destino da pessoa.
Beatriz: E quem determina?
B.: Quem determina o destino da gente? Olorum.
C.: Eu fiquei muito impressionado com seus sonhos...
M.: ...Que disse? Que ele come o tabaco...
Beatriz: ...Desde sete anos de idade...
M.: E para que serve?
B.: Satisfação. É gostoso! Acalma, relaxa…
Beatriz: Serve muito!...
C.: ... Eu penso que ter sonhos como esses que você teve
é algo que demanda muito de alguém. É também,
de alguma forma, de uma grande responsabilidade, e eu gostaria
de te dizer que eu senti que foi algo, por um lado, muito duro
para você, também, ter tidos esses sonhos.
B.: A gente sabe das coisas. É aviso que o orixá
dá. É como se você tivesse uma premonição.
C.: Sim, mas o ponto é que você entendeu isso...
B.: Claro... A gente tem que estar sempre preparado para as coisas
da vida.
C.: Você tem que estar preparado. E você tem que
ser disciplinado.
Beatriz: E como se prepara?
B.: Como se prepara? Se preparando, preparando a mente e o corpo.
C.: Então, isso é muito importante, porque, se
eu entendi corretamente, quando alguém esta dormindo, o
orixá vê algo e a pessoa vê através
do orixá. A pessoa vê o que o orixá está
vendo.
B.: É.
C.: O fato de se contar o sonho a alguém também
é importante, ou não?
B.: Sim. Nem todos tipos de sonho cê pode contar, senão
pode quebrar a força.
M.: Ou seja, é muito importante ter um espaço íntimo,
privado.
B.: Uma vez que eu tava no Rio de Janeiro e sonhava que eu tava
viajando pra África, uma pessoa dizia assim pra mim: “Você
quer ganhar 20 cruzeiros?” Eu dizia assim: “Pra quê?”
“Pra você levar esse pacote pra mim na África.”
Eu dizia: “E como é que eu vou daqui pra África
levar esse pacote?” Aí dizia: “Não,você
vai.” Aí pegava um envelope assim, me dava o envelope,
escrevia uma coisa em cima, como se fosse uma carta. Dizia: “Você
vai, entrega essa carta aqui pra essa pessoa e essa pessoa lhe
leva pra África”. Aí eu acordei assim assustado...
Aí de tarde eu estava brincando com meu filho de santo,
jogando carta, jogando tarô, aí ele falou pra mim
assim: “O senhor teve um sonho?” Eu disse: “Tive”.
“Tá aí naquelas cartas, tem uma viagem muito
longa que o senhor vai ficar famoso. E o senhor sonhou.”
Eu disse: “Ah, isso foi de ontem pra hoje.” Quando
deu uma e pouca da tarde o carteiro bate, tava um envelope com
uma passagem pra eu vir do Rio pra Bahia e os documentos pra eu
assinar, pra fazer um documentário pra viajar pra África.
Pode? Então são tipos de sonhos que se realizam,
que é verdade.
C.: E então há outros sonhos que são apenas
por prazer.
B.: Ninguém sonha por prazer!
C.: Porque para mim, nos sonhos, há sempre um pouco de
desejo. Por exemplo...
B.: Quantas vezes uma pessoa tá fazendo uma coisa e sonha
com outra coisa que não tem nada a ver com aquilo. Não.
Não tem nada h a ver. Desejo é uma coisa e sonho
é outra. Não tem vínculo nenhum sonho com
desejo.
C.: Por exemplo, quando Martin Luther King disse “Eu tenho
um sonho”, ele estava dizendo que existe uma força
no sonho, uma força que pode impulsionar as coisas. E eu
penso que esta força é parte do desejo...
B.: O sonho é quando a gente vai dormir, que nosso anjo
de guarda sai da gente, então ele mostra aquilo que a gente...
mostra aquilo pra gente. Não tem nada a ver. Quantas vezes
a gente tá dormindo e tá sonhando que tá
em transação com uma pessoa, transando com uma mulher!
Tá na festa!
C.: Isso também é o orixá ou não,
nesse caso?!
M.: Ele está dizendo uma coisa que se teoriza muito em
psicanálise. Ele disse, se você sonha quando está
acordado, se divide. Que o sonho é para quando se dorme.
Que quando está acordado é melhor não sonhar.
Eu acredito que ele tenha dito isso. Ou seja, que não há
lugar,..., não sei, pelo menos como ele o entende...
B.: Claro. A alma tá livre. Você não pode
sonhar acordada. Ninguém sonha acordado... É, são
pensamentos, tem que dormir.
C.: Há então, no mínimo, três níveis
diferentes de consciência: quando a pessoa sonha, quando
está dormindo mas não está sonhando e quando
está acordado.
B.: Não. Um só.
C.: E o transe?
B.: É diferente.
Beatriz: Não é consciência?
B.: Em transe não. Aí é o orixá.
E: Uma pessoa quando volta do transe não se lembra de
nada...
B.: ... Não se lembra de nada. Não sabe nada do
que aconteceu
E: É como se fosse uma anestesia total.
C.: ...Quando se acorda de um anestesia se está em um
estado particular de consciência ou de inconsciência,
e quando se acorda de um transe também se está em
um determinado estado de consciência. Se sente aliviado,
por exemplo.
E.: Não.
C.: Não, na sua experiência? Então, nada
te acontece?
B.: Tem pessoas que tão doentes, pressão alta,
problema, e quando acorda: “Ah, que alívio! Que bom.”
E.: Você fala a parte física..Quando você
volta, o problema foi resolvido durante o transe...
C.: ...Era isso. Penso que no transe, mesmo que você não
tenha uma consciência...
E.: ...Não a nível mental.
C.: Não a nível mental, mas mais num nível
geral, global. Você está aliviado, alguma coisa acontece
durante o transe, mesmo que você não tenha consciência
disso.
B.: Porque o orixá quando pega a gente, ele descarrega
as energias negativas... Dá força, dá energia
positiva pra a gente.
C.: Esse é um ponto.
B.: É pra isso que o orixá vem, pra trazer alegria.
C.: E através desse processo a pessoa pode desenvolver
mais, digamos, o seu verdadeiro eu, ou... Porque, o que eu estava
tentando formular anteriormente, mas não consegui, foi
que muitas vezes percebemos que as pessoas estão presas
a uma posição que não lhes é agradável
ou fácil. Por exemplo: se a pessoa se sente culpada, ou
não pode expressar suas habilidades ou seus pensamentos,
ou o que seja... Penso que o transe ou o contato com o orixá
possa ajudá-lo a desenvolver uma forma mais ampla de ser...
mais você mesmo.
E.: Sim, mas não durante o transe.
C.: Não durante o transe, mas talvez, através do
transe.
E.: Não, não.
B.: Não.
C.: Você não acredita. Quando, então?
E.: Quando, dia a dia, você faz uma ligação...
B.: É o eixo, o dia a dia, entre eu e o orixá.
Eu vivo aqui só para o orixá.
C.: Então você enfatiza o que diz no trabalho diário,
no contato diário com o orixá, não no transe.
Mas ainda assim, o transe é um momento muito importante
no terreiro. E as cerimônias.
E.: Sim, é muito importante porque o orixá vem.
M.: É importante para a comunidade, não para o
indivíduo.
B.: É. A vida toda, o tempo todo, de ano a ano, sempre
tem isso. Quando a gente vai pra o barracão, pra fazer
festa para que os orixás venham, primeiro se fazem as oferendas
durante o dia...
E.: ... A parte mais importante já foi feita...
B.: ... Já foi feito, então nós vamos para
o barracão e lá se faz a festa, uma corrente, e
todo mundo ali tá preparado pra receber o orixá.
Como se fosse uma corrente para que o orixá venha.
C.: Sim, mas quando isso acontece produz uma mudança na
comunidade e em cada indivíduo na comunidade.
B.: Em todos ao redor. Tudo que tiver ali sente a força
do orixá. A energia do orixá.
Beatriz: O axé.
C.: Este é um ponto muito importante. Não é
apenas o dia-a-dia. É também um momento quando o
orixá vem e traz com ele a força, e uma ligação
com uma experiência mais ampla.
B.: Melhor quando a gente faz uma festa que o dono da festa venha.
Se o dono da festa vir, descer, incorporar nos filhos, nas filhas,
todo mundo fica feliz porque ele veio, ele aceitou as oferendas.
Então a gente fica com mais força e mais poder.
C.: Isso é muito importante, é exatamente ao que
eu me referi antes quando disse que, às vezes, as pessoas
se mantêm apenas em um estado de consciência. E não
se conectam com uma experiência mais ampla, ou com forças
espirituais... Então, entendi que para eles o transe é
importante para a comunidade, é importante que o orixá
venha à comunidade. Entendi que, de alguma forma, é
o momento que a comunidade se abre ao contato com essas forças.
B.: É, pra receber. Tem que abrir o coração
pra receber o orixá. Porque é uma alegria!
C.: Isso é muito importante, porque penso que estamos,
freqüentemente, nos defendendo de tais experiências,
de alegria, ou tristeza, ou o que quer que seja.
B.: Tem pessoas que choram de emoção quando...
C.: Qual é a relação entre o Terreiro e
Pierre Verger?
E.: Pierre Verger foi iniciado pela senhora que fez a iniciação
de pai Balbino.
C.: Então eles, de certa forma, são irmãos.
E.: Sim. E Verger o conheceu, ele era um pequeno garoto. E o
sonho de Pierre Verger era de que pai Balbino...
C.: Mãe Senhora…
E.: Mãe Senhora…
C.: Qual era a relação de Mãe Senhora e...
E.: Verger? Mãe Senhora fez a iniciação
de Verger...
C.: ...Mas quem fez a iniciação de Mãe Senhora?
Ela foi uma das fundadoras do movimento...
E.: Há uma linhagem de sacerdotes...
B.: Minha vó Ninha. [Mãe Aninha, do Terreiro Afonjá]
Glossário:
BABALORIXA = O Pai Que Faz o Orixá, sacerdote Maximo
do Terreiro, no caso, Aganju
AYABA LESSEN OYA = Zeladora do Reino de Iansã
IYA AGAN = Responsável pelo Culto dos Mortos.
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